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Conjunto Mindelo

[Sem Título]

O conjunto Mindelo marcou a época, mas não existiu durante muito tempo. Dissolvido um ano após a independência do país, destacara-se por ter atuado fora do arquipélago, em Angola, e por ter sido um dos primeiros grupos a gravar discos (Santo, 1998: 229) [1]. Amado sublinha o sucesso que atingiram em pouco tempo, devido a forma de interpretar os géneros musicais santomenses, como ússua, socopé e rumba (Amado, 2010: 68). Durante anos, encheram os terraços onde tocavam [2]. Ensaiavam e atuavam com frequência no terraço do irmão do vocalista, o terraço Mindelo em Oque-Del-Rei. O filho dele, Vava Pinto, sem ter assistido às atuações do conjunto, guarda na memória várias histórias que lhe foram transmitidas: “Eu tenho um tio que era mesmo cantor profissional. Era o Godinho dos Mindelo. O meu tio, irmão da minha mãe. O meu pai tinha um salão do conjunto, o terraço Mindelo. Era onde o conjunto do meu tio cantava. Só que já não tive sorte de conhecê-los. O conjunto era do meu pai e do meu tio, mas o meu pai não cantava nem tocava. Mas o salão era do meu pai.” [3]. Além de atuar neste terraço, o conjunto tocava noutros terraços na ilha de São Tomé, entre os quais, o Carrocel em Rocinha Cola (Almeirim) [4], o Swing em Bombom [5] o Boeing-707 na Praia Gamboa [6], o Izidoro em Ribeira Afonso [7], o Brinca na Areia na Madre Deus [8], o Quichipá [9] e, ainda, no salão Piquina-Piquina em Água Colma [10].

O cantor Godinho, que também tocava viola, era acompanhado por mais quatro violistas (Quintino Chinês, Zeferino, Mário e Fonseca), um baterista (Zé Mindelo) e um tocador de reco-reco (Inácio). Vários temas deste conjunto ficaram guardados na memória dos santomenses e ainda costumam ser reinterpretados (Amado 2010, 69).

Os arranjos musicais do Mindelo destacavam-se entre as interpretações dos grupos existentes, o que pode ser o sinal de maturidade e de talento dos membros do conjunto. Além disso, a quantidade de registos realizados pela Rádio, durante o relativamente curto período de existência do grupo, indica uma extraordinária criatividade, assim como a dedicação dos músicos [11].

[1] Suponho que se trata de EP editados pela Ngola: “V centenário de S. Tomé/Toni Fada Quintino” com o número de referência LD171, “Canivètê possom/Mindelo sadê Mindelo” (LD 172), “Vivé di nom Cabaça/Eufrázio Homem Zôgô” (LD 232), “Arranca sola/Taji ocedo” (LD 233) e “Queima roupa/Saudade” (LD 234). As datas de edição não devem constar nas capas dos discos, já que o autor do site não as indica (http://www.alewand.de/musik/saotome_music.html, consultado em setembro de 2021).

[2] No jornal A Voz de S. Tomé, encontramos alguns anúncios sobre estas atuações, por exemplo nas edições: 14.09.1971, ano 24, n.º 1010, p. 4, 2.11.1971, ano 24, n.º 1015, p. 4, 30.11.1971, ano 24, n.º 1019, p. 2, 7.12.1971, ano 24, n.º 1020, p.4.

[3] Entrevista 11.2014, Lisboa, 10.08.2014.

[4] A Voz de S. Tomé, 07.09.1971, ano 24, n.º 1008, p. 4.

[5] A Voz de S. Tomé, 26.10.1971, ano 24, n.º 1014, p. 2, 23.11.1971, ano 24, n.º 1018, p. 4, 14.12.1971, ano 24, n.º 1021, p. 4.

[6] A Voz de S. Tomé, 16.11.1971, ano 24, n.º 1017, p. 4.

[7] A Voz de S. Tomé, 04.01.1972, ano 24, n.º 1024, p. 2.

[8] A Voz de S. Tomé, 01.02.1972, ano 24, n.º 1028, p. 3.

[9] A Voz de S. Tomé, 15.02.1972, ano 24, n.º 1030, p. 3.

[10] A Voz de S. Tomé, 21.09.1971, ano 24, n.º 1010, p. 2.

[11] Além das bobines em que foram registadas somente as músicas do Mindelo, encontramos, também, várias fitas com coletâneas, em que as músicas deste grupo estão apresentadas em conjunto com os grupos que o antecederam, sucederam ou lhe foram contemporâneos, como Leonenses, os Quibanzas, Boa Vista, Libelinha, Úntues, Diolinda, Trindadense, GNT, Quicos Verdes, Cabana, Victória, África Negra, Socopé Cruzelense.

[Fragmento do livro Dêxa puíta sócó(m)pé. Música em São Tomé e Príncipe: do colonialismo à independência de Magdalena Bialoborska Chambel (2022: 220-221)]

Entrevistas

Entrevista 11.2014, Lisboa, 10.08.2014

Fontes

A Voz de S. Tomé

Bibliografia

Amado, Lúcio Neto (2010), Manifestações culturais são-tomenses. Apontamentos, comentários, reflexões, São Tomé, UNEAS.

Chambel, Magdalena Bialoborska (2022), Dêxa puíta sócó(m)pé. Música em São Tomé e Príncipe: do colonialismo à independência, Lisboa, Centro de História da Universidade de Lisboa.

Santo, Carlos Espírito (1998), A Coroa do Mar, Lisboa, Caminho.

Imagens

Capa do EP do conjunto Mindelo. “Canivètê possom/Mindelo sadê Mindelo” (LD 172), editado pela Ngola (s/d).

Localização

Metadados

Magdalena Bialoborska Chambel, “Conjunto Mindelo,” Mapa Cultural de São Tomé e Príncipe, acedido 27 de Fevereiro de 2024, https://culturastp.com/items/show/34.