Conjunto os Quibanzas

Os Quibanzas

Entre os músicos que fizeram parte do conjunto Os Quibanzas, Santo enumera os cantores, Iseter Abreu, Salgueiro Tioló e António Aragão, que tocava, também, a gaita-de-beiços, quatro tocadores de viola, Álvaro Pontes, Luís, Jaime Rodrigues e Carlitos, e um baterista, Octávio (Santo, 1998: 226).

Os Quibanzas costumavam ensaiar na Ponta Mina, porque a aparelhagem pertencia a um funcionário da alfândega, Álvaro Pontes, que também fazia parte do grupo. Tocavam em vários terraços, acompanhando bailes nos anos 1970. Em A Voz de S. Tomé de 1972 encontra-se um anúncio da sua participação no baile no terraço Os Castros [1].

Iseter Abreu, vocalista durante um período curto, mas importante na história do grupo, recorda com pormenores as peripécias da sua entrada no conjunto. Além de se debruçar sobre as modificações musicais e interpretativas que sugeriu ao conjunto, o cantor indica desigualdades e as estratificações persistentes na sociedade santomense.

“O Luís que era desse grupo, propôs-me para que fosse eu a entrar no grupo. Mas houve no grupo umas outras pessoas que não gostaram da ideia. Não sei se foi assim porque eu era de Neves [2]. Havia sempre esta coisa de tribalismo. Então preferiram outro moço da Boa Morte. Ele era mestiço, tinha a cor mais ou menos do António Aragão. Mas fomos todos. Cantei uma música deles, não era nada para mim. O outro moço, em vez de levar a sua própria voz, foi a imitar o Zé Aragão. O Zé Aragão, que era o irmão do António Aragão, cantava nos Úntues. Ele marcou mesmo uma era. Então esse moço estava a imitar mesmo a voz de Zé Aragão. Só que ele tinha um defeito – ele nos intervalos, para retomar a música, entrava fora de tom, entrava fora de tempo. (...) então eles disseram que a única hipótese era eu. Quando entrei no grupo, alterei totalmente o sistema do grupo. Sistema musical. Alterei tudo. Eram 7 elementos que estavam no grupo. E eles no grupo não tinham coro. E tinham mais tendência de tocar músicas copiadas. Eu fui e alterei tudo isso. Comecei também a interpretar a música em língua de São Tomé” (Entrevista 15.2014).

O cantor explica que o grupo, antes da sua entrada, se limitava a copiar as músicas de outros, principalmente do exterior. Mesmo se composto pelos bons músicos, não tinha o seu próprio estilo e, por causa disso, não conseguia competir com outros conjuntos existentes na mesma altura.

Muitas das músicas do grupo foram compostas por Iseter, que levava uma base melódica aos ensaios, onde a banda preparava os arranjos. Nas suas palavras, “…pedia ao grupo que ponha mais flores à volta da base” (Iseter Abreu, entrevista, 29.08.2019). De seguida, escrevia a letra: “Primeiro aparecia a melodia e depois as palavras. E depois nessa melodia eu tentava por ainda mais florzinhas” (Entrevista 15.2014). Durante dois anos em que fez parte do conjunto compôs dezenas de canções. Mestre de metáfora, atento observador e crítico social, chegou a ser censurado pela PIDE, que pediu a tradução e, posteriormente, proibiu a execução de algumas das músicas dos Quibanzas, entre os quais o “Flakon ku galça”.

Mesmo após este episódio, continuou a criar as letras de crítica ao regime colonial, assim como a desafiar os governantes, improvisando em forro, na presença deles, frases de múltiplas interpretações. A sua importante passagem pelo conjunto terminou com a sua viagem para Portugal em finais de dezembro de 1973. O grupo continuou a sua atividade, ganhando bastante fama, com outros elementos.

Nos arquivos da RNSTP existem mais de 10 fitas magnéticas com gravações do conjunto os Quibanzas, o que afirma a sua importância e a grande capacidade criativa.


[1] A Voz de S. Tomé, 15.02.1972, Ano XXIV, Nº 1030, p. 3.

[2] Localidade no norte da ilha de São Tomé, habitada por muitos angolares que para aí se deslocaram. Iseter Abreu é filho de mãe angolar e de pai forro, mas foi criado pela mãe e pelo padrasto, também angolar. A observação feita por ele pode ser considerada como um dos exemplos que refletem a discriminação dos angolares pelos forros, até agora frequentemente mencionada pelos angolares no sul da ilha (várias conversas em São João dos Angolares, setembro 2019).

[O texto desta entrada provém de Bialoborska, 2020]

 

Entrevistas

Entrevista 15.2014, Baixa da Banheira, 29.08.2014

Fontes

A Voz de S. Tomé

Bibliografia

Amado, Lúcio Neto (2010), Manifestações culturais são-tomenses. Apontamentos, comentários, reflexões, São Tomé, UNEAS.

Bialoborska, Magdalena (2020a), “Dêxa puíta sócó(m)pé. Música em São Tomé e Príncipe do colonialismo para independência”, tese de doutoramento, Lisboa, Iscte – Instituto Universitário de Lisboa.

Santo, Carlos Espírito (1998), A Coroa do Mar, Lisboa, Caminho.

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