Conjunto Leonino

A história do Leonino, que mais se destacou na década de 1960 e, também, na década seguinte, começou nos finais dos anos 1950, quando dois amigos, Quintero Aguiar, tocador de bandolim [1] e Hidemburgo, tocador de viola, se juntaram e convidaram outros elementos para completar o grupo (Viegas, 2019: 29). Nas suas várias fases da existência, fizeram parte do grupo, além dos seus fundadores, Gaspar Ramos na viola, baterista Juvenal Lopes (mais tarde substituído por Argentino Graça), flautista Pinho, José Canzá no canzá e José Aragão, Óscar Santos e Tomé de Roque nas vozes (Amado, 2010). O grupo foi batizado como Leonino de forma espontânea, durante uma das atuações na roça Santa Margarida. Antes disso usavam somente o nome do seu fundador, Quintero e o seu conjunto (Viegas, 2019: 30). A escolha do nome do grupo remeterá ao Sporting, o de Portugal, que na altura desta atuação, ocorrida nos inícios dos anos 1960, era um clube forte [2], mas também o de São Tomé – filial do de Lisboa – que reuniu um apreciável número de adeptos entre os ilhéus (Nascimento, 2013). É de supor que o élan em torno dos símbolos desportivos passasse para a denominação de um conjunto musical.

Nas suas músicas, cheias de metáforas em forro, utilizado em grande parte dos textos, transmitiam críticas ao colonizador e à situação sociopolítica em que o arquipélago se encontrava. Entre os compositores que criavam as músicas para o conjunto, destacam-se Yana e Almense, ao lado dos próprios membros do grupo, Hidemburgo e Aguiar [3].

Quintero Aguiar, entrevistado por Luís Amado, indica que, numa certa altura, as músicas do conjunto foram proibidas pelo governador da colónia, que mandou traduzir as suas letras para português para as avaliar (Amado, 2010: 47). Felício Mendes menciona um locutor da Rádio Clube, que, cumprindo as ordens do governador, traduzia as letras e interpretava as metáforas para as fornecer às autoridades portuguesas. Era o amigo de praticamente todos os membros do grupo [4].

A observação sobre as letras apresentada por Viegas no primeiro volume de Cancioneiro da música popular são-tomense, acrescenta mais algumas informações relevantes para uma mais clara perceção do teor das músicas do conjunto:  “…carregadas de metáforas que veiculam mensagens e críticas sociais sobre o quotidiano, chamando também a atenção, não raras vezes, para a necessidade da defesa da identidade cultural dos filhos das ilhas, concorrendo igualmente para despertar a consciência coletiva com vista à libertação do jugo colonial” (Viegas, 2019: 31).

Uma das músicas do Leonino, o Gandú, foi, e continua a ser, considerada como uma das mais importantes músicas compostas nas ilhas e constitui um exemplo de uso de uma metáfora para a crítica da situação em que se encontrava o arquipélago. A letra foi escrita por Olívio Tiny, estudante de medicina que faleceu jovem, e a música é de autoria de José de Sousa Soares, mais conhecido como Zarco, compositor que frequentemente colaborava com o conjunto. Uma metáfora muito bem acertada refletia a ganância e a ignorância dos colonizadores. Como tubarões, em vez de conviver pacificamente no mundo criado para todos, apoderavam-se dos outros territórios e dos seus habitantes para aumentar a sua área de influência. Em vez de respeitar, atacavam, desrespeitando a soberania de povos e de territórios. A seleção das palavras permitiu, em poucas linhas, expressar a situação vivida em várias partes do mundo:

Dêçu fé omali

Patxi da pixi na

Gandu cu tê fama

Só fé uê lizu

Tomé cuá dê na [5].

A primeira atuação ocorreu no cinema Império, numa matiné completamente cheia. Foi a primeira vez que neste espaço se ouviu a música santomense e não portuguesa ou europeia, como era costume [6]. O conjunto voltaria a tocar naquele espaço e atuava com frequência no Sporting Clube de São Tomé, no Rádio Clube (Amado, 2010: 46), no Santana Futebol Clube [7], no Salão Tim-Tim ou no terraço Piquina-Piquina [8]. O Leonino foi o grupo que mais marcou a época de surgimento de consciência de colonizado, mas que não se conseguiu adaptar à introdução de equipamentos eletrónicos. A sua popularidade decresceu e o seu lugar de destaque foi ocupado por outros grupos, que apostaram numa sonoridade mais moderna, seguindo as tendências da época.

O conjunto Leonino deixou de existir por causa das divergências entre os seus membros em relação à forma de funcionar do grupo nos finais dos anos 1960, altura em que começaram a surgir outros grupos musicais com sonoridade mais moderna. Fernando Aragão, filho de José Aragão, vocalista do grupo, recorda assim a fase final do conjunto: “O meu pai como estudou em Portugal, viu as coisas novas, queria que o conjunto progredisse em termos de equipamento. E nesta altura, devido a divergência, ele achava que já não tinha espaço no conjunto, abandonou o conjunto. E como o senhor Juvenal Lopes era muito amigo dele, também resolveu abandonar o Leonino” (Entrevista 29.2016). O filho deste último confirma:

“Depois os Leoninos terminam porque senhor Quintero e dois outros defendiam a manutenção do som do grupo mais puro e o meu pai, sobretudo por influência de Zé Aragão que tinha vindo de Portugal na altura, defendiam a modernização, inclusão de amplificadores elétricos. Estas duas filosofias entraram em choque, houve cisão do grupo. O Leonino terminou nos finais de sessenta, princípios de setenta, e surgiram os Úntues” (Entrevista 47.2019).

No arquivo da RNSTP encontram-se duas bobines com o registo do Leonino [uma fita original e uma cópia].

 

[1] A presença deste instrumento permite aventar que o Leonino foi um dos primeiros conjuntos em São Tomé e Príncipe. O bandolim, utilizado com frequência nos agrupamentos musicais, não foi incluído em mais nenhum conjunto. Amado menciona que anteriormente Quintero Aguiar costumava juntar-se ao agrupamento Almense, tocando bandolim (Amado, 2010: 45).

[2] Por exemplo, em 1960, o Sporting conquistou a Taça dos Vencedores de Taças.

[3] A informação através de trabalho de Felício Mendes, que entrevistou Quintero Aguiar e partilhou o que ouviu numa série de curtos documentários, disponíveis em https://www.espacm.com/quintero-aguiar/quintero-a-e-leoninos-doc/, consultado em agosto 2019.

[4] Quintero Aguiar e os Leoninos, uma série de quatro documentários realizados por Felício Mendes e disponíveis em: https://www.espacm.com/quintero-aguiar/quintero-a-e-leoninos-doc/, consultado em agosto de 2019.

[5] A primeira estrofe da música Gandu da autoria de Olívio Tiny: “Deus fez o mar | E repartiu-o por todos os peixes | O tubarão que tem fama | Após luta tenaz | Ficou com toda a parte”. Tradução de Carlos Espírito Santo (Santo, 1998: 2018).

[6] Quintero Aguiar e os Leoninos, uma série de quatro curtos documentários realizados por Felício Mendes e disponíveis no seu site: https://www.espacm.com/quintero-aguiar/quintero-a-e-leoninos-doc/, consultado em agosto de 2019.

[7] A Voz de S. Tomé de 5.11.1966, Ano XX, N 762, p. 5.

[8] A Voz de S. Tomé de 26.11.1966, Ano XX, N 765, p. 5.

 

[O texto retirado de Bialoborska, 2020a]

 

Entrevistas

Entrevista 29.2016, Cacém, 10.06.2016

Entrevista 47.2019, São Tomé, 25.01.2019

Fontes

A Voz de S. Tomé

Bibliografia

Amado, Lúcio Neto (2010), Manifestações culturais são-tomenses. Apontamentos, comentários, reflexões, São Tomé, UNEAS.

Bialoborska, Magdalena (2020a), “Dêxa puíta sócó(m)pé. Música em São Tomé e Príncipe do colonialismo para independência”, tese de doutoramento, Lisboa, Iscte – Instituto Universitário de Lisboa.

Nascimento, Augusto (2013b), Desporto em vez de política no São Tomé e Príncipe colonial, Rio de Janeiro, 7Letras.

Santo, Carlos Espírito (1998), A Coroa do Mar, Lisboa, Caminho.

Viegas, Luís (2019), Butá kloson ba lônji. Cancioneiro da música popular são-tomense. Volume I. Agrupamento Leonino, Conjunto os Úntues, Lisboa, edição do autor.

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