Conjunto Onda Verde

O conjunto Onda Verde surgiu em 1977, apesar de existirem memórias de encontros dos futuros membros do grupo no ano anterior. Após alguns meses de ensaios, a recorrer aos instrumentos emprestados ou alugados, criaram o seu primeiro repertório e aperfeiçoaram as técnicas de execução. O desempenho foi valorizado pelo diretor da empresa, Alcântara, que decidiu comprar na cidade os instrumentos para o conjunto, na circunstância, os instrumentos do grupo de polícia, o Posepo. Os instrumentos nunca foram entregues ao conjunto. Pertenceram sempre à empresa. Começaram os ensaios a sério. Na altura já existia o Centro Cultural em Ribeira Peixe, um lugar adequado à preparação das atuações.

O grupo rapidamente conquistou público, não só em Ribeira Peixe, que já o seguia e apreciava, mas também nas localidades próximas, como São João de Angolares. Até agora, pessoas de São João lembram-se das letras de músicas do grupo que costumava tocar no famoso terraço César ou, ainda, na praça principal da exígua cidade, onde antigamente os melhores conjuntos se apresentavam (Entrevista 87.2020).

Inicialmente o grupo era composto por mais de sete pessoas: dois vocalistas (primeira e segunda voz), três violistas (Jorge, viola solo, Pequenino, ritmista e Adriano, baixista), baterista (Gabriel), percussionista (tocador de canzá) e “outros colegas que ajudavam e faziam a terceira voz” (Entrevista 87.2020, Entrevista 88.2020, Ribeira Peixe). Em setembro de 1980, juntou-se ao grupo o carismático vocalista, João Chatiça. A sua forma de cantar, bem como a força das suas letras, deram ainda mais fama ao grupo. Em pouco tempo, o conjunto foi convidado para tocar em vários cantos da ilha. Recordam-se de terem atuado, entre outros sítios, em Porto Alegre, Colônia Açoriana, Ribeira Afonso, Neves e em São Tomé (Entrevista 83.2020).

Aos géneros musicais tocados por outros conjuntos santomenses, como rumba, samba, socopé e puxa, acrescentaram mornas e as lentas músicas angolanas. Ao lado de forro e angolar, cantavam em crioulo cabo-verdiano.

A letra contava o dia-a-dia da localidade, da empresa, assim como alguns problemas dos habitantes. Havia muitas músicas sobre o presidente Manuel Pinto da Costa, já que era o senhor mais alto do país. A maior parte de música entrava com o nome do senhor. Naquela altura quem dizia que não gostava do senhor… Eu não posso dizer que não. O senhor era único (Entrevista 88.2020). Qualquer pessoa podia trazer a música para o grupo ensaiar. Mas as melhores letras eram de autoria do vocalista, João Chatiça.

O conjunto começou a empalidecer na altura em que a empresa entrou em decadência. Em meados dos anos 1980 já não havia apoios da empresa para as deslocações do grupo, pelo que não podiam atuar noutras partes da ilha. Os instrumentos – sempre pertença da empresa –, que anteriormente usavam praticamente sem limitações, eram guardados e tinham de ser requisitados para eventuais ensaios e atuações na empresa. O grupo ficou desmotivado decerto por esta situação a que se somava a evolução do país. Condições de vida cada vez piores, falta de meios de subsistência e, o pior, falta de alternativas e perspetivas retiraram as forças necessárias para partilhar a energia que se criava no palco com o público, que não só assistia às apresentações, mas também dançava. Por volta de 1985/1986, o grupo deixou de atuar. Até hoje não sabem o que aconteceu aos instrumentos. Nunca mais tentaram reativar o conjunto. Mas têm uma certeza: mesmo sem ensaiar, amanhã podemos tocar, garantem (Entrevista 89.2020).

 

[uma parte desta entrada provém do artigo publicado na revista Africana Studia, 34 (Bialoborska, 2020b: 144-146)]


Entrevistas

Entrevista 83.2020, Ribeira Peixe, 04.10.2020

Entrevista 87.2020, Agripalma, 7.10.2020

Entrevista 88.2020, Ribeira Peixe, 8.10.2020

Entrevista 89.2020, Monte Mário, 9.10.2020

 

Bibliografia

Bialoborska, Magdalena (2020b), “Panorama musical numa roça no sul de São Tomé: Ribeira Peixe antes e depois da independência”, Africana Studia, 34, pp.131-149.

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